quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A sangue frio

“A sangue frio”, de Truman Capote é um clássico da literatura e um livro jornalístico que traçou uma mudança no processo de escrita do jornalismo. Também denominado como romance de não ficção, o livro é uma reportagem narrativa, que combina práticas jornalísticas e estruturas de narração da ficção.

Em 1959, um brutal assassinato de uma família de Holcomb, no estado do Kansas, desperta a curiosidade de um jornalista que viria a escrever um best-seller de grande repercussão no século XX.

Truman iniciou seu livro com um grande material de dezenas de entrevistas, depoimentos, uma infinidade de recortes de jornal, agendas, diários, cartas dos assassinos e relatórios policiais. Material que culminou em oito mil páginas de anotações e tomou seis anos para sua averiguação.
Mais do que simplesmente narrar os acontecimentos de um assassinato e a trajetória dos bandidos, Capote preocupou-se em mostrar a partir do assassinato, o choque que existia entre as duas Américas: o país seguro que a família Clutter conhecia e o país desenraizado e amoral habitado pelos seus assassinos.

A grande característica do livro é a riqueza de detalhes e uma narração minuciosa que o autor usa para que o leitor consiga visualizar exatamente a cena do crime, o sofrimento das vítimas e mais do que tudo, entrar na mente dos assassinos. Tudo isso utilizando sua própria memória como ferramenta principal, descartando o uso de gravadores frente aos entrevistados, e interligando sua memória visual dos fatos com o conteúdo jornalístico literário.

A família Clutter vivia em uma cidadezinha pacata no Kansas, onde Capote ficou um ano respirando os ares que a família respirava e arrecadando o máximo de documentos e dados possíveis. Com isso, ele descreve no livro o impacto que os homicídios tiveram na cidade, os moradores, as suas angústias, incertezas, suas ambições, e até levanta questões sobre o sucesso de uma família tradicional considerada feliz e perfeita.

Quanto aos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, o autor consegue narrar a trajetória desde a cena do crime até o corredor da morte. E depois com muitas visitas feitas na prisão, Capote traça um perfil dos dois levando em conta a família, a infância e os momentos difíceis que passaram.
No desenrolar das investigações, existe uma humanização do autor em relação aos assassinos, que faz Truman desenvolver uma estreita ligação entre eles, em particular a Perry, que mesmo com seu ímpeto violento, é caracterizado no livro como um homem maltratado pela vida, mas que deixa transparecer em alguns momentos uma fragilidade e sensibilidade que fascinam o autor chegando a deixá-lo apaixonado pelo assassino.
Um olhar diferente, e aprofundado sobre um tema que teve muita repercussão na mídia fez com que até hoje “A sangue frio” seja reconhecido como uma das mais arrasadoras reflexões sobre a violência na América.

Um comentário:

Gisele Vechin disse...

Mariana, eu adorei o filme. O livro não li, mas quero muiiito. Fazer um post sobre ele, é maravilhoso!! pq com todos que comentei do filme, me respondera - Ahhh muito parado - Aff quase tive um treco. Vc leu ou assistiu O Perfume. Riqueza de descrição de cheiros.. numca mais senti o cheiro das coisas como antes de ler esse livro. O filme choca. Pela sujeira, pela interpetração genuína do ator principal.. vc vai ter muiito o que falar sobre ele.

Beijão!